Nomade Ind
Exorcismos Urbanos
Março 2010
Nesta intervenção tivemos a colaboração de um grande amigo na construção de um texto sensível o suficiente para resgatar uma lembrança esquecida e dar voz a um lugar que já foi passagem para muitos que provavelmente não terão acesso a esses escritos.
Um sopro no suspiro da morte
Suspiramos profundamente antes de girar o trinco da porta que nos levaria ao espaço esquecido da loucura onde realizaríamos nossa intervenção. Munidos de uma intuição ousada e um intenso sentido de transformação, encaramos nossa insanidade como quem monta num cavalo xucro ou encara um tigre siberiano. Naquele instante, o suspiro era a chave quase silenciosa para entrar no corredor flutuante da existência, onde corpo e espírito, morte e vida se entrelaçam incessantemente. Corpo-espírito. Morte-vida. Sem separação. O suspiro gerou uma breve suspensão no tempo marcando um entre-tempo característico do acontecimento: pausa de dois compassos que antecedeu a entrada no universo das ruínas intensivas, antigo templo onde confinava-se loucos. O silêncio oceânico do prédio histórico foi rasgado pelo barulho agudo da porta. Logo no primeiro saguão nosso corpo foi inundado por um cheiro de morte viva, e, balançando como uma maré de lua nova, nossa respiração tornou-se lenta e profunda. Diferente da visão comum de morte, sempre associada a algo sombrio, fúnebre, macabro e assustador, o odor que arrepiava nosso pêlo e nos fazia falar sussurrado tinha uma vibração próxima da luz e da cor. As ruínas recebiam os raios de sol como que livrando a morte de um peso que não necessariamente ela carrega. Depois, quando conseguimos formular pensamentos, entendemos que o peso e horror que se atribui à morte são mais uma faceta humana do que algo transcendente. Tem mais cara de caveira com uma foice e manto preto o ser humano que resolve tirar de circulação o indivíduo dito louco colocando-o numa sala fechada do que uma idéia de morte propriamente dita.
Sempre atentos a ativar a vida onde quer que ela esteja, ingressamos nas ruínas de uma memória que se quer esquecer. Tolice, pois não há como esquecer a loucura que está sempre em nós, em cada um, múltipla e singular. Pois foi na tentativa de se fazer esquecer a loucura que se fundaram os hospícios e hospitais psiquiátricos. Podemos então, começar a colher no ar algumas pistas daquele cheiro de morte viva que ocupava o espaço. Quando se tenta conter a vastidão infinita do corpo-espírito sob a imposição da clausura o que fica nas paredes é a marca do sofrimento. A vastidão do espírito, quando enclausurada, provoca no corpo a marca da dor. No intuito de manter-se livre, o corpo-espírito não cessa de investir contra as paredes que o enclausura, movimento que marca também no espaço as notas do sofrimento. O que sentíamos era a reverberação de anos e anos de dor que ficaram incrustados na paredes, solo e teto. Não há tinta que apague, não há reforma que transforme.
Suspiramos outra vez tentando encontrar um mínimo de superfície neste rio de intensidades loucas e respirar alguma condição ou palavra que nos permita criar algum território possível para expressar algum pensamento. Nunca é tranqüilo falar da nossa loucura. Do desespero de desejar matar a sede com água sendo que no único bebedor possível só há pó e teia de aranha. Uma escada que leva a lugar nenhum e uma porta que liga dois vazios. Imagine um corpo que rasteja, arrasta, berra. Some a isso um organismo encharcado de químicos variados que não trazem viagem, só torpor e apatia culminando num total impedimento da expressão e voz. O que você sente?
Aron K.L
Fotos: Danilo Christidis
Texto: Leonardo Martins Costa Garavelo





















