Textos categorizados 'arte performatica'

Exorcismos Urbanos #6

Nomade Ind

Exorcismos Urbanos

Março 2010

Nesta intervenção tivemos a colaboração de um grande amigo na construção de um texto sensível o suficiente para resgatar uma lembrança esquecida e dar voz a um lugar que já foi passagem para muitos que provavelmente não terão acesso a esses escritos.

Um sopro no suspiro da morte

Suspiramos profundamente antes de girar o trinco da porta que nos levaria ao espaço esquecido da loucura onde realizaríamos nossa intervenção. Munidos de uma intuição ousada e um intenso sentido de transformação, encaramos nossa insanidade como quem monta num cavalo xucro ou encara um tigre siberiano. Naquele instante, o suspiro era a chave quase silenciosa para entrar no corredor flutuante da existência, onde corpo e espírito, morte e vida se entrelaçam incessantemente. Corpo-espírito. Morte-vida. Sem separação. O suspiro gerou uma breve suspensão no tempo marcando um entre-tempo característico do acontecimento: pausa de dois compassos que antecedeu a entrada no universo das ruínas intensivas, antigo templo onde confinava-se loucos. O silêncio oceânico do prédio histórico foi rasgado pelo barulho agudo da porta. Logo no primeiro saguão nosso corpo foi inundado por um cheiro de morte viva, e, balançando como uma maré de lua nova, nossa respiração tornou-se lenta e profunda. Diferente da visão comum de morte, sempre associada a algo sombrio, fúnebre, macabro e assustador, o odor que arrepiava nosso pêlo e nos fazia falar sussurrado tinha uma vibração próxima da luz e da cor. As ruínas recebiam os raios de sol como que livrando a morte de um peso que não necessariamente ela carrega. Depois, quando conseguimos formular pensamentos, entendemos que o peso e horror que se atribui à morte são mais uma faceta humana do que algo transcendente. Tem mais cara de caveira com uma foice e manto preto o ser humano que resolve tirar de circulação o indivíduo dito louco colocando-o numa sala fechada do que uma idéia de morte propriamente dita.

Sempre atentos a ativar a vida onde quer que ela esteja, ingressamos nas ruínas de uma memória que se quer esquecer. Tolice, pois não há como esquecer a  loucura que está sempre em nós, em cada um, múltipla e singular. Pois foi na tentativa de se fazer esquecer a loucura que se fundaram os hospícios e hospitais psiquiátricos. Podemos então, começar a colher no ar algumas pistas daquele cheiro de morte viva que ocupava o espaço. Quando se tenta conter a vastidão infinita do corpo-espírito sob a imposição da clausura o que fica nas paredes é a marca do sofrimento. A vastidão do espírito, quando enclausurada, provoca no corpo a marca da dor. No intuito de manter-se livre, o corpo-espírito não cessa de investir contra as paredes que o enclausura, movimento que marca também no espaço as notas do sofrimento. O que sentíamos era a reverberação de anos e anos de dor que ficaram incrustados na paredes, solo e teto. Não há tinta que apague, não há reforma que transforme.

Suspiramos outra vez tentando encontrar um mínimo de superfície neste rio de intensidades loucas e respirar alguma condição ou palavra que nos permita criar algum território possível para expressar algum pensamento. Nunca é tranqüilo falar da nossa loucura. Do desespero de desejar matar a sede com água sendo que no único bebedor possível só há pó e teia de aranha. Uma escada que leva a lugar nenhum e uma porta que liga dois vazios. Imagine um corpo que rasteja, arrasta, berra. Some a isso um organismo encharcado de químicos variados que não trazem viagem, só torpor e apatia culminando num total impedimento da expressão e voz.  O que você sente?

Aron K.L

Fotos: Danilo Christidis

Texto: Leonardo Martins Costa Garavelo

Exorcismos Urbanos #5

Nomade Ind.

Exorcismos Urbanos

Dezembro 2009

A dúvida reflete uma vontade nem sempre esclarecida..

Carregada do cansaço avançado da espera…

Os mínimos detalhes já mostram seu espaço de conquista tardia..

Embora sempre desafiado pelos seus padrões inventados..

Até o não homem se fragiliza e requer a ajuda mascarada atenciosa da não presença acordada dos que respondem pelas andanças invisíveis.

Aron K.L

Fotos: Danilo Christidis

Exorcismos Urbanos #4

Nomade Ind.

Exorcismos Urbanos

Outubro 2009


ferro emaranhado sobre o asfalto sobe até aonde a descida se torna um obstáculo,

da altura surgem as sombras

da luz, a coragem

protege da não presença do espetáculo anunciado.

Su

Aron K.L

Fotos: Danilo Christidis

Foto Intervenção

Estúdio Nômade

Tanques Escondidos

2009


As bombas esperam o peso da terra para se esconder

A vergonha do poder precisa de máscara para tomar coragem de se apropriar do que é seu.

Enquanto a máquina dorme,

o discurso é mudo e sua platéia é vazia…

A espreita é necessária quando os seus comuns se encontram, pois a visão é distorcida por uma imagem aproximada…

Te convido a ser sereno mesmo quando tua presença insiste em dominar.

5816-3

Aron K.L

Fotos: Danilo Christidis

Sobre Arte e Vida em pessoa

Acho importante fazer homenagens as pessoas que admiramos. Me sinto bem seguro quando reverencio meu amigo Alejandro Jodorowsky. Na verdade nunca lhe vi pessoalmente, apenas lhe conheço através de seu imaginário, o qual deixa claro em seus livros e filmes. Por isso sinto tal intimidade… fico pensando se sou o único que sente isso, acredito que não…

cenas do filme

cenas do filme "La Montaña Sagrada"

Jodorowsky me inspira uma vida instensamente criativa e crítica de busca por consciência. Quase como uma iluminação budista, porém com muito mais agressividade/humanidade. É invariavelmente teatral e simbólico, pode ser Deus e Diabo com naturalidade. Sua trajetória de vida pode ser conhecida no livro “A Dança da Realidade”  em que conta de maneira extremamente poética suas memórias de jovem.

Em um outro livro, “O dia em que Tereza brigou com Deus”, Jodorowsky faz uma grande retrospectiva de sua árvore geneológica, transforma os personegens de seus antepassados em verdadeiros mitos, criando um significado metafórico para sua existência, fazendo da memória uma lenda eterna. É um sábio ensinamento: em que na vida devemos ser bons contadores de histórias e que os fatos só se convertem em experiência quando são relatados. Todos nós somos heróis em nossas famílias!

Se seus livros livros são um manual de vida seus filmes são uma bomba de mensagens simbólicas, poéticos existênciais, com um tratamento cenográfico extremamente plástico. Destaco “El Topo”, “Fando y Lis” e “La Montaña Sagrada”. Os três levam o espectador a uma viagem onírica no mundo real, com ensinamentos terapêuticos de auto-conhecimento e respeito pela vida (e pela morte).

cenas do filme "El Topo"

cenas do filme "El Topo"

No teatro marcou época com o Movimento Pânico, em que fazia uma verdadeira releitura do inconsciente, manifestando todo o caos interno no palco. Tinha como intenção trazer grandes traumas individuais, ou coletivos, para que fossem expressos através de performances livres sem qualquer tipo de censura, liberando energias negativas e destruidoras indo de encontro a paz e a beleza verdadeiras.

Jodorowsky além de tudo isso e por causa de tudo isso se tornou terapêuta, criou a Psicomagia como abordagem clínica. Acho que essa  construção veio de uma grande potência sua como artista, sempre esteve a serviço da visão, da ampliação da consciência. Este é o maior motivo de estar sendo honrado aqui neste espaço, por que tem o objetivo de fazer da arte uma ferramenta de cura / transformação, sem moralismos, simplesmente podendo existir em plena potência.


Acesse o site da Estúdio Nomade

Arquivos


Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.