Viajar pela primeira vez entre Bolívia e Peru é como um batismo. Fiz há seis anos atrás. Naquela oportunidade se passaram apenas seis meses e retornei a estes países em busca de uma fotografia que eu acreditava. Encontrei. Desde então, percebi que poderia fazer deste ofício minha vida, e colocar nesta câmara escura e em algumas objetivas tudo o que eu acreditava em relação a vida. Um tanto romântico, um tanto sonhador, tinha apenas 20 anos, mas com impulsos também um tanto seguros e talvez uma intuição que me apontava para um lugar qualquer que eu deveria estar. Pois algo iria acontecer, pensei, devo estar lá para ver.
Bom, aconteceu, fiz talvez o trabalho que mais me orgulho até hoje. A mostra “Campesinos – Os retratos da terra” que retratou duas importantes manifestações indígenas na cidade de Cusco. Me rendeu a exposição mais visitada do ano de 2005 na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, e uma série de exposições na Europa no ano de 2007. Ali, nestes dois percursos, conheci a importância do deslocamento, de ver o mundo tal como ele é, e a beleza da diversidade.
Buenas, não preciso nem dizer o tamanho do sentimento de gratidão que tenho com aquelas pessoas e lugares. Precisava retornar. Seis anos depois, em fevereiro de 2011, voltei a “tocar” a algumas pessoas e lugares que foram tão importantes na minha formação como fotógrafo e pessoa. Estes reencontros são um tanto avassaladores e singulares. Nos perdemos no tempo, parece que tudo foi ontem. Chegar em Cusco novamente foi um tanto surreal, era bem cedo, tipo quatro horas da manhã. Tomei banho, conversei com o dono do Hostel (Victor, um grande amigo) por um tempo, e sem descanso saí a caminhar por aquelas ruas com tantas histórias e significados. Tudo muito familiar, muito íntimo e de verdade. Ter permanecido no coração de algumas pessoas por 6 anos é uma sensação tão bonita e emocionante. É como uma confirmação de ter tomado as escolhas certas, um presente da vida.
Durante este mês de fevereiro que viajei pela terceira vez entre Bolívia e Peru foi inevitável eu não me perceber aqui, desde lá de cima da cordilheira. O deslocamento, este ato de confundir nossos pontos de referência, nos abre algumas brechas fundamentais para elaborarmos novas compreensões e arquiteturas das edificações que queremos calçar no alicerce da vida. O trabalho, o sonho e a nossa essência devem caminhar de mãos dadas, podem se esticar às vezes, mas nunca romper. A visceralidade da arte de transitar misturando-se aguça a intuição, repõe a energia da vida e propõe que tenhamos mais cuidado com a alegria de viver, a alegria profunda, bem distante daquela necessidade humana de prazeres imediatos.
A Nômade Image tem em sua essência esta carga, uma carga viva de vida e estrada presente nas pessoas que compõem o Grupo Nômade. Trará agora mais que nunca a nossa pessoalidade, as características de cada um de nós. Como deve realmente ser, uma imagem viva, nômade, mais implicada com questões pertinentes a um conhecimento contínuo e não efêmero, mais voltada para produzir, através da imagem, ferramentas de relação que gerem conteúdo e abram portas e mentes que aspirem liberdade, afeto, descobertas e bons impulsos. Em breve estaremos apresentando alguns projetos realmente Nômades, reflexo de trânsitos, trocas e interferências que mundo nos causa, nos suscitando vontades de interferirmos nós mesmos no mundo. Ele precisa disso. E isto precisa ser feito em rede.
Deslocar-se é necessário.
Vive-te…



0 Respostas para “Deslocar-se é necessário.”